No dia a dia do consultório, aos 77 anos de idade

Dra. Elisabeth Laval Jede não pensa em parar e é apaixonada pela Odontologia.

Em março foi comemorado mais um Dia Internacional da Mulher. A data nasceu da luta de operárias, por direitos trabalhistas, em 1857, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. E uma cirurgiã-dentista, de Curitiba, pôde representar todas as mulheres nessa comemoração. Ela é a Dra. Elisabeth Laval Jede, que aos 77 anos de idade ainda trabalha diariamente em sua clínica, na Rua Itupava, no Alto da XV.

Ela sonhava em ser médica e tinha horror à Odontologia – talvez influenciada por uma irmã que era cirurgiã-dentista. O namorado – que depois virou seu marido – a viu na fila de inscrição para Medicina do vestibular da Universidade Federal do Paraná e quase pôs fim ao relacionamento. “Ele disse que não queria uma mulher médica e afirmou que eu deveria fazer Odontologia”. Como o coração falou mais alto, desistiu e entrou na fila da inscrição para Odonto.

Elisabeth confessa que no primeiro ano da faculdade se perguntava o que estava fazendo ali. Mas, aos poucos, foi pegando gosto. Estava com 20 anos de idade e, para ganhar algum dinheiro, lecionava em um grupo escolar, que ficava em frente ao Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, no bairro de mesmo nome.

Depois de formada deixou a sala de aula e passou a atender as crianças no consultório odontológico que havia no hospital. “Eu ia até a escola, do outro lado da rua, e trazia as crianças para as consultas”. O salário era pago pela escola, que a havia colocado nessa função por causa de sua formação. Ainda ali atendia aos internos do hospital e os pacientes das redondezas.

Nesse período já havia aberto também seu próprio consultório, na Itupava, em 1963. E corria de um lado para o outro. “Desde aquela época já trabalhava muito, pois queria ter meu próprio salário”. E deu certo. “Lembro que na minha lua de mel, em 1964, levei um monte de dinheiro”, brinca.

O marido, Dr. Newton Reffo Jede, também havia feito Odontologia e seguiu carreira como professor na UFPR. Com ele teve quatro filhos, três meninas e um menino. Duas das filhas são cirurgiãs-dentistas. A outra filha é fonoaudióloga e o filho, administrador.

Em 1968 mudou de escola e deixou o consultório do Bom Retiro. Em uma nova instituição escolar, vinculada ao Instituto de Assistência aos Menores (IAM), atendia as crianças e adolescentes carentes em regime de internamento. Neste trabalho havia muitas crianças doentes, internadas por diversas moléstias, um ambiente muito triste. Após 3 anos trabalhando neste local, adoeceu, se deprimiu e entrou em tratamento, sob licença médica. Após este período, entrou em licença-prêmio, totalizando um ano de afastamento.

Quando voltou, em 1971, começou a atender em outra unidade escolar, só para meninas do IAM. Gostava de lá, e após um bom tempo no Lar Escola Ivone Pimentel, descobriu que elas eram infratoras. Em 1983, após concurso público, foi chamada para atender no manicômio judiciário, Penitenciária Central do Estado (PCE), Penitenciária Feminina e Agrícola. Após este momento, prestou serviços em mais três unidades do IAM (Santa Felicidade e Caetano Munhoz da Rocha) - ambas para crianças carentes. Em 2001, foi chamada para prestar serviços no Educandário São Francisco (que abrigava meninos infratores) e lá permaneceu até a sua aposentadoria, em 2008.

Hoje está aposentada, mas nunca deixou de trabalhar. E ainda desenvolveu, ao longo dos anos, um método para tratamento odontológico de crianças e adultos, pacientes portadores de necessidades especiais e daqueles que possuem dificuldades para o tratamento, como medo, trauma, vícios e comportamentos inadequados. Batizado de Vilaje, foi visto por psicólogos como um método de programação neurolinguística, o primeiro e único dentro da Odontologia.

Dra. Elisabeth, inclusive, acredita que o método salvou sua vida em algumas situações. “Às vezes só de olhar para um paciente dentro dessas instituições onde trabalhei sabia que algo de ruim iria acontecer. E normalmente eu procurava deixar o local. Depois ficava sabendo que naquele dia houve uma rebelião, inclusive com mortos”, conta, destacando que contava com uma “proteção divina”, pois quando esses problemas ocorriam ela nunca estava dentro do consultório.

O método, com alguns avanços, foi utilizado, inclusive, para identificar nos consultórios se pacientes utilizavam drogas. O fato foi amplamente noticiado, ganhando as manchetes dos jornais. “Não só consegui que muitos perdessem o medo de ir ao dentista, mas também com que muitos largassem o vício do cigarro e outras drogas”, conta.

Toda essa experiência com jovens infratoras fez com que escrevesse uma monografia de especialização na UFPR, em 1994, intitulada “Uma contribuição odontológica no trabalho com crianças e adolescentes carentes com problemas emocionais e comportamentais”.

Ela diz que, apesar da idade, não pensa em parar de trabalhar. “A Odontologia me dá uma felicidade imensa”, afirma. Dra. Elisabeth acredita que todos vêm ao mundo com uma missão e que a dela foi a de conseguir recuperar tantos infratores pelos locais por onde trabalhou como cirurgiã-dentista.

Apesar de o marido confessar, mais tarde, que tinha se arrependido de ter impedido que ela fosse médica – “ele dizia que meus diagnósticos eram precisos” – nunca quis retomar o sonho da juventude. “Eu trabalhei e trabalho hoje na Odontologia por amor”, assegura.

Concorda que já poderia ter parado. “Mas tenho certeza de que se fizesse isso sentiria muita falta. A minha saúde é o meu trabalho. Trabalhei muito com a marginalidade, mas foi onde pude orientar muitos que estavam nessa situação”.

É viúva desde 1994 e uma das coisas de que gostava de fazer com o marido era dançar. Hoje adora ler e viajar. Lê muito, principalmente na internet, e fica sabendo de muitas novidades pelo Twitter. “Adoro o convívio com pessoas mais jovens. Aprendemos muito com eles”, diz.

  • Fonte: Assessoria de Imprensa

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